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O suicídio de um solitário em meio a multidão

de leitura

sábado, janeiro 09, 2016




Este é um relato de 10 anos atrás.



Estive em Tubarão-SC este final de semana. Fui convidado para uma festa de aniversário. Depois de muita comida e do “parabéns pra você”, fui surpreendido pelo chamado desesperado de um dos meus amigos que estavam presentes. Havia uma semana que sua filha de 15 anos tinha cometido suicídio, e a família notavelmente abalada, ainda procurava entender o porquê da fatalidade. Dizia ele que ninguém ainda havia conseguido identificar a motivação para sua filha retirar a própria vida. As investigações da polícia não trouxeram respostas. Segundo eles não havia nada de errado. Aparentemente um suicídio causado por possível depressão ou término de relacionamento.

Muito abatido e dizendo que eu sabia entender as pessoas, ele pediu que eu tentasse descobrir algo, ver algo que ninguém tinha visto ainda. Achar uma explicação poderia trazer um pouco de conforto à família. É claro que eu aceitei ajudar, embora não soubesse ainda o que poderia fazer. Quis deixar bem claro para ele que às vezes é preciso tempo para poder começar a aceitar as coisas. Era melhor esperar um pouco. Tudo era muito recente ainda, e procurar a resposta agora poderia ser bastante doloroso. Ele insistiu. Disse que precisava compreender porque uma garota aparentemente perfeita poderia ter tirado sua própria vida dessa forma (decidi por não mencionar a forma do suicídio em respeito aos pais).

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Eu conheci toda sua família. Todos sempre muito educados e hospitaleiros. Confirmaram em uma só voz, ela tinha tudo que uma garota da idade dela gostaria de ter: amor, carinho, um quarto só para ela, computador, roupas, e amigos, muitos amigos. Balançavam a cabeça e continuavam afirmando: ela sempre foi sorridente, alegre. Sempre conversava com todo mundo. Perguntei se ela tinha namorado. Disseram que não, e a mãe ainda afirmou que conversou com a melhor amiga e todos os amigos mais próximos sobre isso. Ela não tinha namorado e nem aparentava querer estar com alguém. Sendo assim, a família excluiu a motivação passional para o que aconteceu.

Conversa vai e conversa vem, a avó da garota, que até o momento mantinha-se cabisbaixa e com poucas palavras, lá do canto da sala diz: olha, quando ela não estava com a gente ela estava no quarto dela. Eu às vezes via ela sair tristinha do quarto. Eu perguntava se era algo e ela dizia que só estava cansada da escola, e logo saia sorrindo e alegre. A revelação da avó foi uma peça importante para começar a entender. Eu sei que é normal escondermos o que sentimos, escondermos o que pensamos. É claro que esse esconde-esconde passa a ser perigoso quando perdemos o controle sobre os pensamentos com teor que consideramos negativo. Pedi para ver o quarto dela.

O pai dela, visivelmente abalado, disse que tudo estava rigorosamente da mesma forma que ela havia deixado antes de morrer, exceto por uma ou alteração feita pela polícia. Realmente o quarto não parecia nem arrumado, nem totalmente desarrumado. Qualquer um poderia dizer que alguém dormiu ali na noite passada, mas há praticamente duas semanas a dona do quarto não estava mais ai. O guarda-roupa com duas portas abertas, a cama desarrumada, o edredom encostado no canto da cama. Sobre a escrivaninha alguns livros, papéis amassados, um copo vazio, e um caderno que, com uma folha em branco, trazia mais respostas do que se podia imaginar.

Percebi que haviam alguns pedacinhos de papel junto à espiral do caderno, e imaginei que alguém pudesse ter arrancando alguma folha antes de o ter deixado ali. Na folha em branco, notei algumas marcas de escrita. Como se alguém tivesse escrito com tanta força na folha anterior que acabou por marcar a folha seguinte. Com um lápis, rabisquei levemente a folha em branco, e dentre outras coisas escritas em blocos, vi a frase que mais chamou minha atenção:

Sou a pessoa mais solitária do mundo

Este foi apenas o início do caminho para a família descobrir que a garota de 15 anos guardava muita coisa que provavelmente ninguém mais tinha acesso. Meticulosamente ela mantinha duas imagens. Uma de menina alegre e contente com a vida e outra de quem nunca se encontrou nesse mundo, mesmo com tão pouca idade. A segunda imagem, a da garota que se sentia sozinha em meio à multidão só se mostrou em alguns textos em um caderno e outros em uma pequena agenda, mas de forma muito sutil. Foi em um blog, já desativado, que ficou evidente tudo o que se passava na mente dela quando não estava alegrando as pessoas. Postagens e mais postagens durante o período de dois anos que nem a polícia chegou a encontrar. Ela não queria que ninguém soubesse do seu sofrimento. Realmente não queria.

Sorrisos, amigos e coisas materiais nem sempre são um reflexo de uma pessoa feliz. Esta garota vivia de uma imagem que não representava verdadeiramente aquilo que ela de fato sentia. Estava presa mesmo tendo toda a liberdade que alguém comum poderia imaginar, e o mais trágico, se odiava por ser assim, porque jamais a viram como ela realmente era. A prisão foi ao extremo para ela. Machucava, confundia, esgotava. Ela precisava fazer algo para se libertar, e numa solidão maquiada com sorrisos e amigos, não conseguiu enxergar outra saída senão acabar com a própria vida. Nunca saberei ao certo porque ela não procurou ajuda da família ou porque não se abriu com qualquer outra pessoa. Uma coisa é certa, durante todo o tempo em que sentia-se mal por dentro, ela não deixou de alegrar as pessoas.

Se você se familiarizou com o texto, por favor, procure ajuda. Existem outras saídas sim. Tente conversar com familiares, procure ajuda profissional, fale com algum amigo de confiança. O que sugiro é que não se isole e não aceite pensamentos que condicionam você a desistir de tudo. Se você acha que não tem mais forças, PROCURE AJUDA.


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