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Quem se junta pela paixão há de viver sofrendo

de leitura

quarta-feira, março 29, 2017






O relacionamento que se inicia exclusivamente por uma emoção tende inevitavelmente ao fracasso. Quando o interesse em se relacionar é quase desencadeado por um fluxo emocional, o apego afetivo fica focado em ilusão instintiva que uma hora ou outra vai acabar. Seja no início do relacionamento ou em algum momento de crise conjugal, fazer escolhas importantes com base na paixão só traz uma certeza: não há decisão em prol dos desejos reais do indivíduo, e sim em prol da carência criada momentaneamente com a estrutura de alguma repressão passada. Compra-se muito chocolate não porque é realmente necessário, mas porque naquele exato momento de hipoglicemia (falta de açúcar no sangue) comprar o máximo de doce e comer tudo de uma vez parecia (uma ilusão) a melhor escolha.

A primeira pergunta que você pode fazer é: por que sempre faço escolhas importantes ou finalmente decido agir quando estou em um momento de instabilidade? Por exemplo: uma mulher evita as várias investidas de um rapaz por um bom tempo. Ele parece pegajoso e insistente, mas de repente, logo quando ela sente que está com baixa autoestima e sentindo carência, o rapaz some e fica frio com ela. Ela não acredita, mas justamente agora ela sente uma enorme vontade de ir atrás do mesmo homem o qual ela repeliu antes. Em muitos dos casos até se humilha para conseguir a atenção de volta. O que acontece é que agora ela está interpretando tudo com os olhos do medo e fará de tudo para conseguir o que tinha de volta, mesmo que para isso precise agir contra seu raciocínio lógico. Ela acha que quer se relacionar com o rapaz, mas na verdade ela quer apenas deixar de sentir o medo que ficou fortalecido após a mudança de comportamento dele.

Dessa forma, ao se iniciar um relacionamento baseado, primordialmente, na paixão amorosa, inicia-se também o apego a uma ilusão. O casal se une por questões impulsivas para satisfazer carências inconscientes e, assim, fica dependente do tempo de duração da emoção, ou seja, do tempo em que terão medo de perder o parceiro ou algo que o parceiro esteja proporcionando ou prometa proporcionar. Seguindo esse fluxo, a única homogeneidade no relacionamento será a satisfação de carências básicas, como segurança e sexo, por exemplo. E qual o problema nisso, Mion? O “x” da questão é que quando essa emoção acaba (a paixão), a homogeneidade também acaba, e geralmente o que sobra são duas pessoas com gostos, costumes e vontades diferentes. Você se pergunta, como que eu me relacionei com essa pessoa? O que acontece em seguida são ciclos e mais ciclos de desentendimentos, brigas e sofrimento e a grande tendência de ficar pulando de galho em galho em busca de sexo e atenção.

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É importante também deixar claro que um fluxo emocional não acontece apenas no início de um relacionamento. Pode acontecer a qualquer momento. Um casal pode estar junto há alguns anos e só decidir juntar as escovas de dente justamente em um momento de crise: depois de uma traição ou de algum problema financeiro, por exemplo. E aqui, a escolha é feita da mesma forma que é feita quando se vai ao supermercado com fome. Nossa ação é motivada pela carência iminente por comida (inicialmente glicose) e nossa decisão (comprar ou não comprar aquele chocolate delicioso) é totalmente influenciada pela emoção, o medo de não encontrar alimento e trazer novamente equilíbrio fisiológico para o organismo através da saciedade.

É cada vez maior o número de relacionamentos Miojo, que se iniciam ao calor das labaredas da paixão e trazem mudanças rápidas que simulam algo verdadeiro, bem decidido e eterno. Em questão de pouco tempo de namorico, surge a inevitável necessidade de mostrar ao mundo a união do casal como prova de estabilidade e certeza de escolha. Posta-se fotos que serão retribuídas com centenas de comentários duvidosos de parabenização: “Que casal lindo!” Muda-se o status de relacionamento nas redes sociais como simbolismo de responsabilidade social. Uma vontade inconsciente de achar que está finalmente fazendo a coisa certa. Na maioria dos casos esses relacionamentos duram uma média de 3 a 6 meses e são calcados no sexo e carência por atenção.

Tendo em vista todos os aspectos observados acima, fica evidente que iniciar e mergulhar profundamente em relacionamentos amorosos com base na paixão ou em algum tipo de emoção correlata é como planejar um suicídio sem se dar conta das consequências. Quem é menos carente e tem capacidade de se equilibrar emocionalmente mais rápido, consegue sair desses relacionamentos mais facilmente, mas se você é como a maioria das pessoas, poderá sofrer antes, durante e depois, correndo o risco de se tornar pistantrofóbico e evitar se relacionar “sério” com alguém por ter medo de sentir tudo de ruim que sentiu em relacionamentos anteriores. A paixão pode existir, você pode e deve se envolver, mas precisa aprender a controlar impulsos e não agir exclusivamente para preencher carências afetivas infantis.


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