terça-feira, novembro 14, 2017

Os adoradores de vítimas



Eu sei que o próprio título desse texto pode desencadear uma onda revoltosa em algumas pessoas reativas, o que prova ainda mais como a questão da adoração de vítimas está chegando a níveis alarmantes

Mas enfim, o que ou quem são os adoradores de vítima. Eu explico: vamos pegar um dos significados da palavra “vítima” que convém a esse texto:

Pessoa que sofre um acidente ou desgraça gerados por causas humanas ou naturais.

Bom, tendo isso em mente, podemos dizer que existem vítimas de preconceito, vítimas de abusos sexuais, vítimas de algum crime qualquer, vítimas de um acidente automobilístico, vítimas da forte tempestade que caiu em algum lugar, e assim por diante.

Todo mundo pode ser vítima de alguma coisa algum dia. Infelizmente isso é inevitável. E, enquanto vítima, é de extrema importância que esse alguém receba apoio para se recuperar. Ao se perceber que várias outras pessoas também são vitimadas por algo em comum, mais importante ainda é combater a causa e educar para o futuro. Assim é possível evitar que erros se repitam.

Seguindo essa lógica movimentos sociais e ativismos têm sua importância. Pois eles escancaram um problema e apontam a causa. O grande problema surge quando pessoas começam a viver disso. Quando pessoas começam a adotar a postura de salvadores dos oprimidos e usam isso como estratégia para receber atenção, prestígio e dinheiro. Quando isso acontece esses movimentos sociais passam a lutar pela continuidade do problema e pela eterna luta dos oprimidos. Parece cruel falar sobre isso, mas crueldade mesmo é se aproveitar de vítimas para proveito próprio.

O objetivo final de qualquer grupo de apoio a vítimas TEM que ser o fim da causa que gera as vítimas específicas para casa movimento, mesmo que isso nunca aconteça de fato. De forma simplificada: se eu quero que que NÃO haja mais vítimas de abuso sexual é claro que, em um mundo idealizado, meu objetivo final é o de não ser necessário a existência de nenhum movimento social contra abusos sexuais, simplesmente por não haver mais qualquer abuso. Entendeu? Repito, a lógica precisa ser essa mesmo que na prática o objetivo seja bem difícil de ser alcançado.

A grande diferença entre quem realmente quer resolver um problema e quem quer perpetuá-lo está na forma de encarar os fatos. Os adoradores de vítima não querem acabar com as vítimas. Eles não querem cessar a causa principal que pode gerar vítimas. De forma bem direta: Eles não querem que tudo se resolva pois assim eles perdem a atenção que recebem. Assim eles perdem a sensação de autoestima reforçada ao poder ajudar alguém enquanto ela é vítima (inferior). Entendem a diferença? Adoradores de vítimas precisam de vitimas para se sentirem bem, caso contrário sentem-se vazios e deslocados do mundo.


Adoradores de vítima nunca deixam a vítima parar de ser vítima. Eles protelam sua recuperação e criam movimentos que nunca acabam. São pessoas egoístas que se alimentam da tragédia alheia para se sentirem especiais, mais bondosos, mais humanos. Demasiados humanos. É por isso que geralmente criam monstros sociais. Geralmente gostam de se expressar com frases do tipo: brasileiro não presta; país racista, machista, misógino; sociedade corrupta, e etc.. Perceba que sempre colocam todo mundo no mesmo saco e culpam todos, mesmo quem não tem nada a ver com a causa. Essa é uma das formas mais comuns de se perpetuar a vítima. Cria-se um monstro social que nunca morre. Colocam uma sementinha de culpa em qualquer pessoa para que suas frases de efeito ecoem no maior número de pessoas possível. Se fosse para resolver o problema estará ótimo. 

MAS NÃO É! É para causar! Para lacrar! Para pisar na cara da sociedade e se sentir melhor com isso. Como se a sociedade INTEIRA fosse má, cruel e injusta. 

Eu não sou, você é? Tem muita gente boa nesse mundo ainda.

Um exemplo perfeito de adorador de vítima está no papel que a atriz Jacqueline Mazarella faz na famosa série de TV Todo mundo odeia o Chris. Nesta série a atriz encara a figura da professora Morello. Em praticamente todas as cenas a senhorita Morello participa, ela trata o Chris com muito dó, sempre perpetuando a situação de vítima social por questões raciais. Na série, a professora exagera tanto na adoração de vítimas que até o Chris estranha e sempre joga indiretas. Ela age com preconceito mas de uma forma diferenciada. Ela simplesmente adora as supostas vítimas e as trata como se fossem seres inferiores que precisam do apoio dela para sempre. Claro que a mãe do Chris, a Rochelle, odeia isso. Se você não conhece essa série recomendo que assista! É muito boa!

Senhorita Morello elogiando os discursos do Chris


No filme Clube da Luta também temos um clássico exemplo de adoradores de vítima onde o ator Edward Norton e a icônica atriz Helena Bonham fazem um papel perfeito de adoradores de vítima. Indo de grupo em grupo de apoio procurando vitimas das mais diversas causas. Sem entrar em maiores detalhes, recomendo muito que assistam ao filme.



Visto isso, vejamos algumas dicas para reconhecer um adorador de vítima:

1 – São bem seletivos em relação a que vítima apoiar. Geralmente escolhem a vítima como se estivessem em um supermercado e então decidem quem, quando e porque lutar por aquela vítima;

2 – Quase sempre falam como se estivessem falando pela humanidade;

3 – Quase sempre acham que sabem mais do que os outros;

4 – Frequentemente mandam alguém de opinião contrária estudar mais;

5 – Quando fazem campanha pró-vítima SEMPRE usam a chantagem emocional pois acreditam que essa é a melhor forma de mobilizar pessoas;

6 – Sempre possuem justificativas para seus próprios erros;

7 – Dificilmente admitem estarem errados;

8 – Focam suas atividades em dar esmola em vez de ensinar a evoluir na vida ou mudar de fato uma situação real;

9 – São sempre extremamente agressivos, embora critiquem quem usa da violência. Geralmente guardam muito ódio dentro de si e liberam nos discursos;

10 – Sempre criticam a comunidade que fazem parte mas como se não fizessem, por exemplo: Esse país não presta (ele é daquele país), brasileiro é tudo burro (ele é brasileiro).

Identificando ou não algum adorador de vítima, o que esse texto realmente pretende e ajustar seu senso crítico para suas próprias atitudes. Será que às vezes não nos apoiamos na desgraça alheia como muleta para nos sentimos bem? Será que talvez não estejamos sendo egoístas demais ao ponto de achar que só a nossa forma de pensar é capaz de ajudar quem realmente precisa de ajuda? Todo mundo pode ser vítima algum dia, e precisamos sempre estar prontos para ajudar e apoiar quem realmente precisar, mas uma coisa é certa, viver para manter uma causa que só perpetua a condição de vítima sem de fato tentar resolver o problema não me parece a coisa mais sensata.

Abraço e até a próxima!

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Carlos Mion
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Brasil e mundo